O TESOURO DE BRESA


O TESOURO DE BRESA
              O árabe, com sua prodigiosa imaginação, faz a lenda surgir de todos os recantos do deserto, e como são interessantes as lendas que os baduínos e caravaneiros vão colher para além dos oásis... Malba Tahan era um verdadeiro caçador de lendas. A lenda abaixo atesta o valor desse grande pesquisador brasileiro, que projetou-se nos mais diversos campos do saber e é reconhecido internacionalmente.
 
 

             Houve, outrora, na Babilônia – a famosa cidade dos jardins suspensos – um pobre e modesto alfaiate chamado Enedim Musseieb, homem inteligente e trabalhador, que por suas boas qualidades e dotes de coração, granjeara muitas simpatias no bairro em que morava.
             Enedim passava o dia inteiro, de manhã até à noite, cortando, consertando e preparando as roupas de seus numerosos fregueses, e embora fosse paupérrimo, não perdia a esperança de vir a ser riquíssimo, senhor de muitos palácios e de grandes tesouros. Como conquistar, porém essa tão ambicionada riqueza? – pensava o mísero remendão, passando e repassando a agulha grossa de seu ofício – como descobrir um desses famosos tesouros que se acham escondidos nas profundezas dos mares?
              Ouvira ele contar, em palestras com estrangeiros vindos do Egito, da Síria, da Grécia e da Fenícia, histórias prodigiosas de aventureiros que haviam topado com cavernas, cheias de ouro; grutas profundas, forrageadas de brilhantes; luras sórdidas que guardavam caixas pesadíssimas a transbordar de pérolas, mimosos frutos da rapina de bárbaros cartagineses. E não poderia ele, á semelhança desses aventureiros felizes, descobrir um tesouro fabuloso, e tornar-se, assim, de um momento para outro, mais rico do que Naboinid, o rei poderoso? Ah! Se tal acontecesse, ele seria, então, senhor de um coruscante palácio: teria numerosos escravos; e, todas as tardes, num grande carro de ouro, tirado por mansos leões, passaria, de seu vagar, por sobre as grandes muralhas de Babilônia, cortejando amistosamente os príncipes ilustres da casa real.
              Assim meditava o bondoso Enedim, divagando por tão longínquas riquezas, quando parou à porta de sua casa um velho mercador da Fenícia, que vendia tapetes, caixas de ébano, bolas de vidro, pedras coloridas e uma infinidades de objetos extravagantes tão apreciados pelos babilônios. Por simples curiosidade começou Enedim a examinar as quinquilharias que o vendedor lhe oferecia, quando descobriu, no meio de uma porção de bugigangas, uma espécie de livro de muitas folhas, onde se viam caracteres estranhos e desconhecidos.
              Era uma preciosidade aquele livro – afirmava o traficante, passando as mãos ásperas pelas barbas que lhe caiam ao peito – e custava apenas três moedas. Três moedas? Era muito dinheiro para o pobre alfaiate. Para possuir um objeto tão raro Enedim seria capaz de gastar até duas moedas.
             - Está bem – respondeu o mercador – fica-lhe o livro por duas moedas, mas esteja certo de que lhe dou de graça.
             Afastou-se o comerciante e Enedim tratou, sem demora, de examinar cuidadosamente a preciosidade que havia adquirido. E qual não foi o seu espanto quando conseguiu decifrar, na primeira página, a seguinte legenda escrita em complicados caracteres caldaicos: “O segredo do tesouro de Bresa”
Por Baal! Por Baal! Aquele livro maravilhoso cheio de mistérios, ensinava com certeza onde se encontrava algum tesouro fabuloso, o tesouro de Bresa! Mas que tesouro seria esse? Enedim recordava-se vagamente de já ter ouvido qualquer referência a ele. Mas quando? Onde? E com o coração a bater descompassado decifrou ainda: “O tesouro de Bresa, enterrado pelo gênio do mesmo nome, entre as montanhas de Harbatol, foi ali esquecido e ali se acha ainda até que algum homem esforçado venha encontra-lo. Harbatol! Que montanhas seriam essas que encerravam todo o lendário ouro de um gênio? E Enedim dispôs-se a decifrar todas as páginas daquele livro, a ver se atinavam, custasse o que custasse, com o segredo de Bresa para apoderar-se do tesouro imenso que o capricho de seu possuidor fizera enterrar nalguma gruta perdida entre montanhas. As primeiras páginas eram escritas em caracteres de vários povos: Enedim foi obrigado a estudar os hieróglifos egípcios, a língua dos gregos, os trinta dialetos fenícios e o complicado idioma dos judeus.
              Ao fim de três anos, Enedim deixava a sua antiga profissão de alfaiate, e passava a ser o intérprete do rei, pois, na cidade não havia quem soubesse tantos idiomas estrangeiros. O cargo de intérprete da Babilônia era bem rendoso: ganhava Enedim cem moedas por dia; ademais, morava numa grande casa, tinha muitos criados e todos os nobres da corte saudavam-no respeitosamente.
              Não desistiu, porém, o esforçado Enedim, de descobrir o grande mistério de Bresa. Continuando a ler o livro encantado, encontrou várias páginas cheias de cálculos, números e figuras. E, a fim de ir compreendendo o que era, foi obrigado a estudar matemática com os calculistas da cidade, tornando-se ao cabo de algum tempo grande conhecedor das complicadas transformações aritméticas. Graças a esses novos conhecimentos pode Enedim calcular, desenhar e construir uma grande ponte sobre o Eufrates, esse trabalho agradou tanto ao rei, que o monarca resolveu nomear Enedim para excercer o cargo de prefeito.
             O antigo e humilde alfaiate passava, assim, a ser um dos homens mais notáveis da cidade. Ativo e sempre empenhado em desvendar o segredo do livro, foi obrigado a estudar profundamente as leis, os princípios religiosos de seu país e os do povo caldeu, com o auxílio desses novos conhecimentos conseguiu Enedim dirimir uma velha pendenga entre os sacerdotes de Marduque e os de Raman.
              - É um grande homem o Enedim! – exclamou o rei da Babilônia quando soube do fato – Vou nomeá-lo Ministro Geral do Reino. E assim fez. Foi o nosso esforçado herói ocupar o elevado cargo de Ministro. Vivia, então, num suntuoso palácio, tinha muitos escravos e recebia visitas dos príncipes mais ricos e mais poderosos do mundo. Graças aos trabalhos e ao grande saber de Enedim, o reino progrediu rapidamente, a cidade ficou repleta de estrangeiros, ergueram-se grandes palácios, várias estradas se construíram para ligar Babilônia às cidades vizinhas. Enedim era o homem mais notável do seu tempo, ganhava diariamente mais de mil moedas de ouro, e tinha em seu palácio de mármores e pedrarias, caixas de bronze cheias de jóias riquíssimas e de pérolas de valor incalculável.
              - Mas – coisa interessante! – Enedim não conhecia ainda o segredo de Bresa, embora tivesse lido e relido todas as suas páginas! Como poderia penetrar naquele mistério? E um dia, cavaqueando com um velho sacerdote de Ramaní, teve ocasião de referir-se ao segredo que o atormentava. Riu-se o sacerdote ao ouvir a ingênua confissão do grande Ministro da Babilônia, e, afoito a decifrar os maiores enigmas da vida assim falou:
              - “O tesouro de Bresa já está em vosso poder, meu senhor. Graças ao livro misterioso adquiristes um grande saber, e esse saber vos proporcionou os invejáveis bens que já possuís. Bresa significa “saber”. Harbatol quer dizer “trabalho”. Com estudo e trabalho pode o homem conquistar tesouros maiores do que aqueles que estão ocultos no seio da terra.”
             Tinha razão o velho pensador de Ramaní. Bresa, o gênio, oculta realmente um tesouro incalculável que qualquer homem esforçado e inteligente pode conquistar, essa riqueza prodigiosa não se acha, porém, perdida no seio da terra nem nas profundezas dos mares: acha-se nos bons livros, que, proporcionando saber aos homens, abrem para aqueles que se dedicam aos estudos com ardor e tenacidade, as grutas maravilhosas de mil tesouros encantados.

Transcrito do livro ‘Lendas do Deserto’, de Malba Tahan.
 
 
 
PS. Malba Tahan é o pseudônimo do matemático brasileiro Júlio César de Mello e Souza, nascido no Rio de Janeiro em 6 de maio de 1895 e falecido no Recife em 18 de junho de 1974). Ao longo de sua vida, o professor Júlio César proferiu mais de duas mil palestras em todo o Brasil, principalmente sobre a didática da matemática. Escreveu e publicou 114 livros.
 
Formatação: Fátima Oliveira

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