"Fingi ser gari por 8 anos e vivi como um ser invisível"


Vale a pena ser lida até o fim 
Pesquisa sobre a invisibilidade social

COMO VOCE TRATA AS PESSOAS MAIS 
 "HUMIILDES PROFISSIONALMENTE"
 
 
"Fingi ser gari por 8 anos e vivi como um ser invisível" (PUBLICAÇÃO DIÁRIO DE SÃO PAULO)
 Psicólogo varreu as ruas da USP para concluir sua tese de mestrado da  "invisibilidade pública". Ele comprovou que, em geral, as pessoas enxergam apenas a função social do outro. Quem não está bem posicionado sob esse critério, vira mera sombra social
 O psicólogo social Fernando Braga da Costa vestiu uniforme e trabalhou oito anos como gari, varrendo ruas da Universidade de São Paulo. Ali, constatou que, ao olhar da maioria, os trabalhadores braçais são "seres invisíveis, sem nome".
 Em sua tese de mestrado, pela USP, conseguiu comprovar a existência da "invisibilidade pública", ou seja, uma percepção humana totalmente prejudicada e condicionada à divisão social do trabalho, onde enxerga-se somente a função e não a pessoa.
 Braga trabalhava apenas meio período como gari, não recebia o salário de R$ 400 como os colegas de vassoura, mas garante que teve a maior lição de sua vida: "Descobri que um simples bom dia, que nunca recebi como gari,  pode significar um sopro de vida, um sinal da própria existência", explica o pesquisador.
 O psicólogo sentiu na pele o que é ser tratado como um objeto e não como um ser humano. "Professores que me abraçavam nos corredores da USP passavam por mim, não me reconheciam por causa do uniforme. Às vezes, esbarravam no meu ombro e, sem ao menos pedir desculpas, seguiam me ignorando, como se tivessem encostado em um poste, ou em um orelhão", diz.
 Apesar do castigo do sol forte, do trabalho pesado e das humilhações  diárias, segundo o psicólogo, são acolhedores com quem os enxerga. E encontram no silêncio a defesa contra quem os ignora.
 Diário - Como é que você teve essa idéia?
Fernando Braga da Costa - Meu orientador desde a graduação, o professor José Moura Gonçalves Filho, sugeriu aos alunos, como uma das provas de avaliação, que a gente se engajasse numa tarefa proletária. Uma forma de  atividade profissional que não exigisse qualificação técnica nem acadêmica. Então, basicamente, profissões das classes pobres.
 Diario - Com que objetivo?
A função do meu mestrado era compreender e analisar a condição de trabalho deles (os garis), e a maneira como eles estão inseridos na cena pública.
 Ou seja, estudar a condição moral e psicológica a qual eles estão sujeitos dentro da sociedade. Outro nível de investigação, que vai ser priorizado agora no doutorado, é analisar e verificar as barreiras e as aberturas que  se operam no encontro do psicólogo social com os garis. Que barreiras são essas, que aberturas são essas, e como se dá a aproximação?
  Diario - Quando você começou a trabalhar, os garis notaram que se tratava de um estudante fazendo pesquisa?
Eu vesti um uniforme que era todo vermelho, boné, camisa e tal. Chegando lá eu tinha a expectativa de me apresentar como novo funcionário, recém-contratado pela USP pra varrer rua com eles. Mas os garis sacaram logo, entretanto nada me disseram. Existe uma coisa típica dos garis: são pessoas vindas do Nordeste, negros ou mulatos em geral. Eu sou branquelo, mas isso talvez não seja o diferencial, porque muitos garis ali são brancos também. Você tem uma série de fatores que são ainda mais determinantes, como a maneira de falarmos, o modo de a gente olhar ou de
 posicionar o nosso corpo, a maneira como gesticulamos. Os garis conseguem definir essa diferenças com algumas frases que são simplesmente formidáveis.
 Diario - Dê um exemplo?
 Nós estávamos varrendo e, em determinado momento, comecei a papear com um dos garis. De repente, ele viu um sujeito de 35 ou 40 anos de idade, subindo a rua a pé, muito bem arrumado com uma pastinha de couro na mão. O sujeito passou pela gente e não nos cumprimentou, o que é comum nessas situações. O gari, sem se referir claramente ao homem que acabara de passar, virou-se pra mim e começou a falar: "É Fernando, quando o sujeito vem andando você logo sabe se o cabra é do dinheiro ou não. Porque peão anda macio, quase não faz barulho. Já o pessoal da outra classe você só ouve o toc-toc dos passos. E quando a gente está esperando o trem logo percebe também: o peão fica todo encolhidinho olhando pra baixo. Eles não.
 Ficam com olhar só por cima de toda a peãozada, segurando a pastinha na mão".
 Diario - Quanto tempo depois eles falaram sobre essa percepção de que você era diferente?
 Isso não precisou nem ser comentado, porque os fatos no primeiro dia de trabalho já deixaram muito claro que eles sabiam que eu não era um gari.
 Fui tratado de uma forma completamente diferente. Os garis são carregados na caçamba da caminhonete junto com as ferramentas. É como se eles fossem ferramentas também. Eles não deixaram eu viajar na caçamba, quiseram que eu fosse na cabine. Tive de insistir muito para poder viajar com eles na caçamba. Chegando no lugar de trabalho, continuaram me tratando diferente.
 As vassouras eram todas muito velhas. A única vassoura nova já estava reservada para mim. Não me deixaram usar a pá e a enxada, porque era um serviço mais pesado. Eles fizeram questão de que eu trabalhasse só com a vassoura e, mesmo assim, num lugar mais limpinho, e isso tudo foi dando a dimensão de que os garis sabiam que eu não tinha a mesma origem socioeconômica deles.
 Diario - Quer dizer que eles se diminuíram com a sua presença?
Não foi uma questão de se menosprezar, mas sim de me proteger.
 Diario - Eles testaram você?
No primeiro dia de trabalho paramos pro café. Eles colocaram uma garrafa térmica sobre uma plataforma de concreto. Só que não tinha caneca. Havia um clima estranho no ar, eu era um sujeito vindo de outra classe, varrendo rua com eles. Os garis mal conversavam comigo, alguns se aproximavam para ensinar o serviço. Um deles foi até o latão de lixo pegou duas latinhas de refrigerante cortou as latinhas pela metade e serviu o café ali, na latinha suja e grudenta. E como a gente estava num grupo grande, esperei que eles se servissem primeiro. Eu nunca apreciei o sabor do café. Mas, intuitivamente, senti que deveria tomá-lo, e claro, não livre de sensações  ruins. Afinal, o cara tirou as latinhas de refrigerante de dentro de uma lixeira, que tem sujeira, tem formiga, tem barata, tem de tudo. No momento em que empunhei a caneca improvisada, parece que todo mundo parou para assistir à cena, como se perguntasse: 'E aí, o jovem rico vai se sujeitar a beber nessa caneca?' E eu bebi. Imediatamente a ansiedade parece que evaporou. Eles passaram a conversar comigo, a contar piada, brincar.
 Diario - O que você sentiu na pele, trabalhando como gari?
Uma vez, um dos garis me convidou pra almoçar no bandejão central. Aí eu entrei no Instituto de Psicologia para pegar dinheiro, passei pelo andar térreo, subi escada, passei pelo segundo andar, passei na biblioteca, desci a escada, passei em frente ao centro acadêmico, passei em frente a lanchonete, tinha muita gente conhecida. Eu fiz todo esse trajeto e ninguém em absoluto me viu. Eu tive uma sensação muito ruim. O meu corpo tremia como se eu não o dominasse, uma angustia, e a tampa da cabeça era
 como se ardesse, como se eu tivesse sido sugado. Fui almoçar, não senti o gosto da comida e voltei para o trabalho atordoado.
 Diario - E depois de oito anos trabalhando como gari? Isso mudou?
Fui me habituando a isso, assim como eles vão se habituando também a situações pouco saudáveis. Então, quando eu via um professor se aproximando - professor meu - até parava de varrer, porque ele ia passar por mim, podia trocar uma idéia, mas o pessoal passava como se tivesse passando por um poste, uma árvore, um orelhão.
 E quando você volta para casa, para seu mundo real?
 Eu choro. É muito triste, porque, a partir do instante em que você está inserido nessa condição psicossocial, não se esquece jamais. Acredito que essa experiência me deixou curado da minha doença burguesa. Esses homens hoje são meus amigos. Conheço a família deles, freqüento a casa deles nas  periferias. Mudei. Nunca deixo de cumprimentar um trabalhador. Faço questão de o trabalhador saber que eu sei que ele existe. Eles são tratados pior do que um animal doméstico, que sempre é chamado pelo nome.
 São tratados como se fossem uma coisa.
 
José Trevisan
Psicólogo clínico, escolar e organizacional CRP 06/16442;
Professor universitário; RH e estratégias de gestão;
Trabalhou por 30 anos na área de Recursos Humanos;
Congressista USA 1996/97 missão brasileira Suécia 1999;
Estágio Alemanha e Espanha;
Especializou-se na área de psicologia clínica;

Trabalha pessoas com transtorno pós-traumático com EMDR:" Dessensibilização e Reprocessamento através de Movimento Oculares"; Hipnose e Gestalt e outras abordagens da psicologia;
Gravou um CD: "Curando suas feridas com relaxamento e meditação"; Atua com consultoria e treinamentos comportamentais e motivacionais para empresas - Leader Training. 
Formatação: Fátima Oliveira
Imagens: Google
Midi: Amanhã-Guilherme Arantes

O TESOURO DE BRESA


O TESOURO DE BRESA
              O árabe, com sua prodigiosa imaginação, faz a lenda surgir de todos os recantos do deserto, e como são interessantes as lendas que os baduínos e caravaneiros vão colher para além dos oásis... Malba Tahan era um verdadeiro caçador de lendas. A lenda abaixo atesta o valor desse grande pesquisador brasileiro, que projetou-se nos mais diversos campos do saber e é reconhecido internacionalmente.
 
 

             Houve, outrora, na Babilônia – a famosa cidade dos jardins suspensos – um pobre e modesto alfaiate chamado Enedim Musseieb, homem inteligente e trabalhador, que por suas boas qualidades e dotes de coração, granjeara muitas simpatias no bairro em que morava.
             Enedim passava o dia inteiro, de manhã até à noite, cortando, consertando e preparando as roupas de seus numerosos fregueses, e embora fosse paupérrimo, não perdia a esperança de vir a ser riquíssimo, senhor de muitos palácios e de grandes tesouros. Como conquistar, porém essa tão ambicionada riqueza? – pensava o mísero remendão, passando e repassando a agulha grossa de seu ofício – como descobrir um desses famosos tesouros que se acham escondidos nas profundezas dos mares?
              Ouvira ele contar, em palestras com estrangeiros vindos do Egito, da Síria, da Grécia e da Fenícia, histórias prodigiosas de aventureiros que haviam topado com cavernas, cheias de ouro; grutas profundas, forrageadas de brilhantes; luras sórdidas que guardavam caixas pesadíssimas a transbordar de pérolas, mimosos frutos da rapina de bárbaros cartagineses. E não poderia ele, á semelhança desses aventureiros felizes, descobrir um tesouro fabuloso, e tornar-se, assim, de um momento para outro, mais rico do que Naboinid, o rei poderoso? Ah! Se tal acontecesse, ele seria, então, senhor de um coruscante palácio: teria numerosos escravos; e, todas as tardes, num grande carro de ouro, tirado por mansos leões, passaria, de seu vagar, por sobre as grandes muralhas de Babilônia, cortejando amistosamente os príncipes ilustres da casa real.
              Assim meditava o bondoso Enedim, divagando por tão longínquas riquezas, quando parou à porta de sua casa um velho mercador da Fenícia, que vendia tapetes, caixas de ébano, bolas de vidro, pedras coloridas e uma infinidades de objetos extravagantes tão apreciados pelos babilônios. Por simples curiosidade começou Enedim a examinar as quinquilharias que o vendedor lhe oferecia, quando descobriu, no meio de uma porção de bugigangas, uma espécie de livro de muitas folhas, onde se viam caracteres estranhos e desconhecidos.
              Era uma preciosidade aquele livro – afirmava o traficante, passando as mãos ásperas pelas barbas que lhe caiam ao peito – e custava apenas três moedas. Três moedas? Era muito dinheiro para o pobre alfaiate. Para possuir um objeto tão raro Enedim seria capaz de gastar até duas moedas.
             - Está bem – respondeu o mercador – fica-lhe o livro por duas moedas, mas esteja certo de que lhe dou de graça.
             Afastou-se o comerciante e Enedim tratou, sem demora, de examinar cuidadosamente a preciosidade que havia adquirido. E qual não foi o seu espanto quando conseguiu decifrar, na primeira página, a seguinte legenda escrita em complicados caracteres caldaicos: “O segredo do tesouro de Bresa”
Por Baal! Por Baal! Aquele livro maravilhoso cheio de mistérios, ensinava com certeza onde se encontrava algum tesouro fabuloso, o tesouro de Bresa! Mas que tesouro seria esse? Enedim recordava-se vagamente de já ter ouvido qualquer referência a ele. Mas quando? Onde? E com o coração a bater descompassado decifrou ainda: “O tesouro de Bresa, enterrado pelo gênio do mesmo nome, entre as montanhas de Harbatol, foi ali esquecido e ali se acha ainda até que algum homem esforçado venha encontra-lo. Harbatol! Que montanhas seriam essas que encerravam todo o lendário ouro de um gênio? E Enedim dispôs-se a decifrar todas as páginas daquele livro, a ver se atinavam, custasse o que custasse, com o segredo de Bresa para apoderar-se do tesouro imenso que o capricho de seu possuidor fizera enterrar nalguma gruta perdida entre montanhas. As primeiras páginas eram escritas em caracteres de vários povos: Enedim foi obrigado a estudar os hieróglifos egípcios, a língua dos gregos, os trinta dialetos fenícios e o complicado idioma dos judeus.
              Ao fim de três anos, Enedim deixava a sua antiga profissão de alfaiate, e passava a ser o intérprete do rei, pois, na cidade não havia quem soubesse tantos idiomas estrangeiros. O cargo de intérprete da Babilônia era bem rendoso: ganhava Enedim cem moedas por dia; ademais, morava numa grande casa, tinha muitos criados e todos os nobres da corte saudavam-no respeitosamente.
              Não desistiu, porém, o esforçado Enedim, de descobrir o grande mistério de Bresa. Continuando a ler o livro encantado, encontrou várias páginas cheias de cálculos, números e figuras. E, a fim de ir compreendendo o que era, foi obrigado a estudar matemática com os calculistas da cidade, tornando-se ao cabo de algum tempo grande conhecedor das complicadas transformações aritméticas. Graças a esses novos conhecimentos pode Enedim calcular, desenhar e construir uma grande ponte sobre o Eufrates, esse trabalho agradou tanto ao rei, que o monarca resolveu nomear Enedim para excercer o cargo de prefeito.
             O antigo e humilde alfaiate passava, assim, a ser um dos homens mais notáveis da cidade. Ativo e sempre empenhado em desvendar o segredo do livro, foi obrigado a estudar profundamente as leis, os princípios religiosos de seu país e os do povo caldeu, com o auxílio desses novos conhecimentos conseguiu Enedim dirimir uma velha pendenga entre os sacerdotes de Marduque e os de Raman.
              - É um grande homem o Enedim! – exclamou o rei da Babilônia quando soube do fato – Vou nomeá-lo Ministro Geral do Reino. E assim fez. Foi o nosso esforçado herói ocupar o elevado cargo de Ministro. Vivia, então, num suntuoso palácio, tinha muitos escravos e recebia visitas dos príncipes mais ricos e mais poderosos do mundo. Graças aos trabalhos e ao grande saber de Enedim, o reino progrediu rapidamente, a cidade ficou repleta de estrangeiros, ergueram-se grandes palácios, várias estradas se construíram para ligar Babilônia às cidades vizinhas. Enedim era o homem mais notável do seu tempo, ganhava diariamente mais de mil moedas de ouro, e tinha em seu palácio de mármores e pedrarias, caixas de bronze cheias de jóias riquíssimas e de pérolas de valor incalculável.
              - Mas – coisa interessante! – Enedim não conhecia ainda o segredo de Bresa, embora tivesse lido e relido todas as suas páginas! Como poderia penetrar naquele mistério? E um dia, cavaqueando com um velho sacerdote de Ramaní, teve ocasião de referir-se ao segredo que o atormentava. Riu-se o sacerdote ao ouvir a ingênua confissão do grande Ministro da Babilônia, e, afoito a decifrar os maiores enigmas da vida assim falou:
              - “O tesouro de Bresa já está em vosso poder, meu senhor. Graças ao livro misterioso adquiristes um grande saber, e esse saber vos proporcionou os invejáveis bens que já possuís. Bresa significa “saber”. Harbatol quer dizer “trabalho”. Com estudo e trabalho pode o homem conquistar tesouros maiores do que aqueles que estão ocultos no seio da terra.”
             Tinha razão o velho pensador de Ramaní. Bresa, o gênio, oculta realmente um tesouro incalculável que qualquer homem esforçado e inteligente pode conquistar, essa riqueza prodigiosa não se acha, porém, perdida no seio da terra nem nas profundezas dos mares: acha-se nos bons livros, que, proporcionando saber aos homens, abrem para aqueles que se dedicam aos estudos com ardor e tenacidade, as grutas maravilhosas de mil tesouros encantados.

Transcrito do livro ‘Lendas do Deserto’, de Malba Tahan.
 
 
 
PS. Malba Tahan é o pseudônimo do matemático brasileiro Júlio César de Mello e Souza, nascido no Rio de Janeiro em 6 de maio de 1895 e falecido no Recife em 18 de junho de 1974). Ao longo de sua vida, o professor Júlio César proferiu mais de duas mil palestras em todo o Brasil, principalmente sobre a didática da matemática. Escreveu e publicou 114 livros.
 
Formatação: Fátima Oliveira

Compromisso não Cumprido


Dona Miriam quase poderia considerar-se uma mulher realizada e feliz: espírita consciente, participante de obras assistenciais, três filhos íntegros e carinhosos, quatro netos adoráveis, idéias lúcidas, saúde boa, situação financeira estável... O único problema era a "cruz" que carregava no lar: seu marido.
Existia, latente, um profundo desentendimento entre eles, que eclodia, vezes inúmeras, em atritos e discussões acaloradas que, não raro, desciam ao nível da agressividade.
Não que fosse má pessoa. Era um homem até generoso, bom pai, caseiro, sem vícios, mas gênio difícil, um tanto impertinente, "qualidades" que, para Dona Miriam, pareciam desenvolver-se na medida em que ele envelhecia.
-- Só o Espiritismo me dá forças para "agüentar" o Gumercindo - Proclamava, enfática. - Quero estar com ele até o fim, cumprindo meu compromisso. Então estarei livre! - Junto, nunca mais!
Assim foi até sua morte, após 48 anos de convivência difícil. De retorno à Espiritualidade, já integrada na Vida Maior, Dona Miriam analisava, com generoso mentor, seus sucessos na vida física
-- Minha filha - dizia-lhe, gentil - você levou existência proveitosa, foi diligente mãe de família, batalhadora nas lides espíritas, servidora da Caridade... Traz bela bagagem de realizações... Mas tem um problema grave, um compromisso não cumprido: seu marido
-- Como? - interrompeu a senhora com estranheza - Não fui fiel aos deveres matrimoniais? Não o suportei estoicamente, durante quase meio século?!
-- Esse é o seu problema: você o suportou apenas! No entanto, seu compromisso era bem diferente. Deveria harmonizar-se com ele, superando antigas mágoas remanescentes de convivência anterior. Adotando a postura de quem carregava pesada cruz, você anulou qualquer possibilidade de aproximar-se dele, ajudando-o a superar suas idiossincrasias com a força da amizade. Faltou-lhe, minha filha, o exercício da caridade que silencia, que perdoa, que não guarda ressentimentos, que supera desavenças. E ele precisava muito de sua compreensão. É uma alma perturbada e neurótica, não obstante suas virtudes. Como você de certa forma contribuiu para que ele se tornasse esse homem, em face de influências perversas e negativas que você exerceu sobre seu Espírito em outras vidas, num passado não muito distante, não vejo outra solução para o problema senão uma nova união entre vocês, em existência futura, repetindo as lições do matrimônio, até que aprendam a conviver pacificamente.
Após o encantamento do início, fatalmente surgem dificuldades de relacionamento na vida conjugal, na Terra, aprendizes insipientes na arte de conviver.
No entanto, aqueles que atravessam o casamento a "ranger os dentes", como se submetidos a intolerável prisão, forçosamente reencontrarão o cônjuge em novas experiências matrimoniais, presos um ao outro por algemas de ressentimento, mágoa, aversão...
Somente quando, os elos do casamento estiverem formados por flores de amizade, desfrutarão os cônjuges a liberdade de decidir se seguirão juntos nos caminhos do porvir.
Livro: "Atravessando a Rua"

Richard Simonetti

20 ANOS CEGO


Há muito tempo atrás, um casal de idosos que não tinham filhos, morava em uma casinha humilde de madeira, tinham uma vida muito tranqüila, alegre, e ambos se amavam muito.

Eram felizes. Até que um dia...
Aconteceu um acidente com a senhora.
Ela estava trabalhando em sua casa
quando começa a pegar fogo na cozinha
e as chamas atingem todo o seu corpo.

O esposo acorda assustado com os gritos e vai a sua

procura, quando a vê coberta pelas chamas e

imediatamente tenta ajudá-la.

O fogo também atinge seus braços e,
mesmo em chamas,
consegue apagar o fogo.

Quando chegaram os bombeiros
já não havia muito da casa,
apenas uma parte, toda destruída.

Levaram rapidamente o casal para o hospital mais próximo,
onde foram internados em estado grave.
Após algum tempo
aquele senhor menos atingido pelo fogo
saiu da UTI e foi ao encontro de sua amada.

Ainda em seu leito a senhora toda queimada,
pensava em não viver mais,
pois estava toda deformada,
queimara todo o seu rosto.

Chegando ao quarto de sua senhora, ela foi falando:

-Tudo bem com você meu amor?

-Sim, respondeu ele,
pena que o fogo atingiu os meus olhos
e não posso mais enxergar,
mas fique tranqüila amor
que sua beleza está  gravada em meu coração para sempre.

Então triste pelo esposo, a senhora pensou consigo mesma:

"Como Deus é bom,
vendo tudo o que aconteceu a meu marido,
tirou-lhe a  visão para que não presencie esta deformação em mim.
As chamas queimaram todo o meu rosto
e estou parecendo um monstro.
E Deus é tão maravilhoso que não deixou ele me ver assim,
como um monstro
Obrigado Senhor!"

Passado algum tempo e recuperados milagrosamente,
voltaram para uma nova casa,
onde ela fazia tudo para o seu querido e amado esposo,
e o esposo agradecido por tanto amor,
afeto e carinho,
 todos os dias dizia-lhe:

-COMO EU TE AMO.
Você é linda demais.
Saiba que você é e será sempre,
a mulher da minha vida!

E assim viveram mais  20 anos até que a senhora veio a falecer.
No dia de seu enterro,
quando todos se despediam da bondosa senhora,
veio aquele marido com os olhos em lágrimas,
sem seus óculos escuros
e com sua bengala nas mãos.

Chegou perto do caixão,
beijou o rosto acariciando sua amada, disse em um tom apaixonante:

-"Como você é linda meu amor, eu te amo muito".

Ouvindo e vendo aquela cena
um amigo que esta ao seu lado
perguntou se o que tinha acontecido era milagre.
Pois parecia que o velhinho parecia enxergar sua amada.

O velhinho olhando nos olhos do amigo,
apenas falou com as lágrimas rolando quente em sua face:

-Nunca estive cego,
apenas fingia,
pois quando vi minha amada esposa toda queimada e deformada,
sabia que seria duro para ela continuar vivendo daquela maneira.
Foram vinte anos vivendo muito felizes e apaixonados!
Foram os 20 anos mais felizes de minha vida.

E emocionou a todos os que ali estavam presentes.


CONCLUSÃO

Na vida temos de provar que amamos!
Muitas vezes de uma forma difícil ...
E, para sermos felizes,
temos de fechar os olhos para muitas coisas,
mas o importante é que se faça única e intensamente com AMOR!

Patrimônio Inútil


Livro: Luzes no Caminho
Richard Simonetti


    Conta Esopo (século VI a.C.), que um homem extremamente zeloso de seus haveres, decidido a resguardar-se de qualquer prejuízo, tomou radical providência:

    Vendeu todos os seus haveres e comprou vários quilos de ouro que fundiu numa única barra.

    Em seguida, enterrou-a em mata cerrada.

    À noite, solitário e esquivo, contemplava, em êxtase, seu tesouro.

    Algo de tio Patinhas, o milionário sovina das histórias em quadrinhos, que se deleita mergulhando num tanque cheio de moedas.

    Um dia foi seguido por amigo do alheio.

    Quando se afastou, após a adoração rotineira, o gatuno desenterrou o ouro e escafedeu-se.

    O avarento quase enlouqueceu, tamanho o seu desespero.

    Um vizinho, ao saber do fato, ponderou:

    – Não sei por que está tão transtornado! Afinal, se no lugar do ouro estivesse uma pedra seria a mesma coisa. Aquela riqueza não tinha nenhuma serventia para você…

    ***

    Difícil encontrar na atualidade pessoas dispostas a enterrar seus haveres.

    Raras os têm sobrando.

    Além disso, seria correr risco inútil.

    As instituições financeiras guardam com segurança nosso dinheiro. Até produzem rendimentos, sem surpresas desagradáveis, salvo quando têm o mau gosto de quebrar, por incompetência ou corrupção.

    Não obstante, muita gente costuma enterrar um bem muito mais precioso, uma riqueza inestimável – a existência.

    Se nos dermos ao trabalho de analisar a jornada terrestre, com suas abençoadas possibilidades de edificação, perceberemos como é valiosa.

    Traz-nos inúmeros benefícios:

        * O esquecimento do passado ajuda-nos a superar paixões e fixações que precipitaram nossos fracassos.
        * A convivência com desafetos transmutados em familiares favorece retificações e reconciliações indispensáveis.
        * O contato com companheiros do pretérito, nas experiências do lar e na atividade social, estreita os laços de afetividade.
        * A armadura de carne inibe as percepções espirituais, minimizando a influência de adversários desencarnados.
        * As necessidades do corpo induzem à bênção do trabalho.
        * O esforço pela subsistência desenvolve a inteligência.
        * As limitações físicas refreiam os impulsos inferiores.
        * As enfermidades depuram a alma.
        * As lutas fortalecem a vontade.
        * A morte impõe oportuno balanço existencial, sinalizando onde estamos, na jornada evolutiva.

    ***

    No entanto, à semelhança do unha-de-fome de Esopo, muita gente troca o tesouro das oportunidades de edificação por uma barra luzente de efêmeras realizações, cuidando apenas de seus interesses, de seus negócios, de suas ambições…

    Quando tudo corre bem, há os que se deslumbram com essa “riqueza”, como aquele lavrador da passagem evangélica:

    Construiu grandes celeiros, guardou neles toda a sua produção e proclamou para si mesmo (Lucas, 12:18-20):

    – Tens em depósito muitos bens para muitos anos; descansa, come, bebe, regala-te…

    Mas Deus lhe disse:

    – Insensato, esta noite pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será?

    Exatamente assim acontece com aquele que se apega às ilusões humanas, buscando realizações de brilho efêmero.

    Um dia vem o indefectível ladrão – a morte –, e lhe rouba o corpo.

    Indigente na vida espiritual, desespera-se.

    Chora, inconformado.

    Recusa-se a aceitar a nova situação.

    Esopo lhe diria:

    – Por que o lamento? Houvesse você estagiado nas entranhas de uma pedra e o resultado seria quase o mesmo. A experiência humana pouco lhe serviu!

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Depressão

Muito interessante!
 
 
Uma mulher que trabalhava numa empresa havia muitos anos, caiu em desespero.
Estava tão depressiva que poderia ter um esgotamento nervoso.
Seu médico, buscando um diagnóstico, lhe perguntou:
- Como se chama a jovem que trabalha ao seu lado?
- Cíntia, respondeu ela, sem entender.
- Cíntia do quê?
- Eu não sei.
- Sabe onde ela mora?
- Não.
- O que ela faz?
- Também não sei.
O médico entendeu que o egoísmo estava roubando a alegria daquela pobre mulher.
- Posso ajudá-la, mas você tem que prometer que fará o que eu lhe pedir.
- Farei qualquer coisa! Afirmou ela.
- Em primeiro lugar, faça amizade com Cíntia. Convide-a para jantar em sua casa. Descubra o que ela está almejando na vida, e faça alguma coisa para ajudá-la.
- Em segundo lugar, faça amizade com seu jornaleiro e a família dele, e veja se pode fazer alguma coisa para ajudá-los.
- Em terceiro, faça amizade com o zelador de seu prédio e descubra qual é o sonho da vida dele.
- Em dois meses, volte para me ver.
Ao fim de dois meses, ela não voltou, mas escreveu uma carta sem sinal de melancolia ou tristeza.
Era só alegria!
Havia ajudado Cíntia a passar no vestibular.
Ajudou a cuidar de uma filha doente do jornaleiro.
Ensinou o zelador a ler e escrever, pois era analfabeto.
"Nunca imaginei que pudesse sentir alegria desta maneira!", escreveu ela.
Os que vivem apenas para si mesmos, nunca encontrarão a paz e a alegria, pois somos chamados por Deus para ser benção na vida dos outros.
Você já conhecia este segredo?
Pense nisso...

Frei Beto - palavras sábias


Ao viajar pelo Oriente, mantive contatos com monges do Tibete, da Mongólia, do  Japão e da China. Eram homens serenos, comedidos, recolhidos e em paz nos seus mantos cor de açafrão.

Outro dia, eu observava o movimento do aeroporto de São Paulo: a sala de espera cheia de executivos com telefones celulares, preocupados, ansiosos, geralmente comendo mais do que deviam.

Com certeza, já haviam tomado café da manhã em casa, mas como a companhia aérea oferecia um outro café, todos comiam vorazmente.

Aquilo me fez refletir: 'Qual dos dois modelos produz felicidade?'

Encontrei Daniela, 10 anos, no elevador, às nove da manhã, e perguntei:

'Não foi à aula?' Ela respondeu: 'Não, tenho aula à tarde'.

Comemorei: 'Que bom, então de manhã você pode brincar, dormir até mais tarde'.

'Não', retrucou ela, 'tenho tanta coisa de manhã...'

'Que tanta coisa?', perguntei.

'Aulas de inglês, de balé, de pintura, piscina', e começou a elencar seu programa de garota robotizada.

Fiquei pensando: 'Que pena, a Daniela não disse: 'Tenho aula de meditação!



Estamos construindo super-homens e super  mulheres, totalmente equipados, mas emocionalmente  infantilizados.

Uma progressista cidade do interior de São Paulo tinha, em 1960, seis livrarias e uma academia de ginástica; hoje, tem sessenta academias de ginástica e três livrarias!

Não tenho nada contra malhar o corpo, mas me preocupo com a desproporção em relação à malhação do espírito. Acho ótimo, vamos todos morrer esbeltos: 'Como estava o defunto?'. 'Olha, uma maravilha, não tinha uma celulite!'

Mas como fica a questão da subjetividade? Da espiritualidade? Da ociosidade amorosa?

Hoje, a palavra é virtualidade. Tudo é virtual. Trancado em seu quarto, em Brasília, um homem pode ter uma amiga íntima em Tóquio, sem nenhuma preocupação de conhecer o seu vizinho de prédio ou de quadra! Tudo é virtual. Somos místicos virtuais, religiosos virtuais, cidadãos virtuais. E somos também eticamente virtuais...

A palavra hoje é 'entretenimento'; domingo, então, é o dia nacional da imbecilização coletiva. Imbecil o apresentador, imbecil quem vai lá e se  apresenta no palco, imbecil quem perde a tarde diante da tela.

Como a publicidade não consegue vender felicidade, passa a ilusão de que felicidade é o resultado da soma de prazeres: 'Se tomar este refrigerante, vestir este  tênis,  usar esta camisa, comprar este carro,você chega lá!'

O problema é  que, em geral, não se chega! Quem cede desenvolve de tal maneira o desejo, que acaba  precisando de um analista. Ou de remédios. Quem resiste, aumenta a neurose.

O grande desafio é começar a ver o quanto é bom ser livre de todo esse condicionamento globalizante, neoliberal, consumista. Assim, pode-se viver melhor. Aliás, para uma boa saúde mental  três requisitos são indispensáveis: amizades,  autoestima, ausência de estresse. Há uma lógica religiosa no consumismo pós-moderno.

Na Idade Média, as cidades adquiriam status construindo uma catedral; hoje, no Brasil, constrói-se um shopping-center. É curioso: a maioria dos shoppings-centers tem linhas arquitetônicas de catedrais estilizadas; neles não se pode ir de qualquer maneira, é preciso vestir roupa de  missa de domingo. E ali dentro sente-se uma sensação paradisíaca: não há mendigos, crianças de rua, sujeira pelas calçadas...

Entra-se naqueles claustros ao som do gregoriano pós-moderno, aquela musiquinha de esperar dentista. Observam-se os vários nichos, todas aquelas capelas com os veneráveis objetos de consumo, acolitados por belas sacerdotisas. Quem pode comprar à vista, sente-se no reino dos céus. Deve-se passar cheque pré-datado, pagar a crédito,  entrar no cheque especial, sente-se no purgatório. Mas se não pode comprar, certamente vai se sentir no inferno...

Felizmente, terminam todos na eucaristia pós-moderna, irmanados na mesma mesa, com o mesmo suco e o mesmo  hambúrguer do Mc Donald...

Costumo advertir os balconistas que me cercam à porta das lojas: 'Estou apenas fazendo um passeio socrático.' Diante de seus olhares espantados, explico: 'Sócrates, filósofo grego, também gostava de descansar a cabeça percorrendo o centro comercial de Atenas. Quando vendedores como vocês o assediavam, ele respondia:... "Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser Feliz"!!

Frei Beto